Branding, Naming & Propriedade Intelectual

Uma marca pode perder um nome que deixou de usar? O caso Twitter, X e o risco de abandonar uma identidade

Trocar o nome de uma empresa é relativamente fácil. Decidir o que acontecerá com tudo o que aquele nome acumulou durante anos é outra história. Uma decisão preliminar nos Estados Unidos envolvendo Twitter, Tweet e o antigo pássaro azul mostra por que um rebranding sério também precisa cuidar da marca que está ficando para trás.

Empório Insights09.09.2026
Colagem editorial com gaveta de arquivo aberta, documentos de marca, símbolos, registros e duas mãos disputando ativos antigos em preto, cinza, bege e pink

O Twitter virou X. Mas o patrimônio não desapareceu junto com o pássaro

Quando Elon Musk anunciou em 2023 que o Twitter passaria a se chamar X, a mudança foi conduzida como ruptura. O nome saiu da plataforma, o pássaro azul perdeu espaço e “tweet” deixou de fazer parte da linguagem oficial.

Três anos depois, parte desse passado reapareceu numa decisão judicial.

Em 3 de setembro de 2026, o juiz federal Colm Connolly, do Distrito de Delaware, decidiu parcialmente a favor da X Corp. numa disputa contra a Operation Bluebird, startup que pretendia lançar uma nova rede social utilizando elementos associados ao antigo Twitter.

A X conseguiu uma liminar impedindo o uso de “Twitter” e de marcas nominativas relacionadas enquanto o processo continua. Mas não obteve, nesta fase, a mesma proteção preliminar para “Tweet” e para o antigo logotipo do pássaro.

Isso não significa que o tribunal tenha encerrado definitivamente a discussão. A decisão é preliminar.

Para branding, porém, ela já coloca uma questão importante na mesa.

Uma marca antiga pode deixar de ser usada e continuar valendo muito.

A frase “formerly known as Twitter” acabou valendo bastante

Um dos elementos considerados pelo tribunal foi o fato de a empresa ainda usar a expressão “X (formerly known as Twitter)” na descrição do aplicativo. Esse tipo de referência ajudava a mostrar que Twitter não havia desaparecido completamente da vida comercial da empresa.

Com “Tweet” e o pássaro, a situação foi diferente. A decisão examinou a ausência desses sinais em pontos atuais da operação e também considerou declarações públicas feitas no período do rebranding sobre deixar a antiga identidade para trás.

A diferença é didática.

Guardar arquivos antigos não é a mesma coisa que continuar administrando um ativo.

Uma identidade pode permanecer viva na memória do público e, ao mesmo tempo, exigir da empresa uma decisão objetiva sobre uso, proteção e futuro.

Rebranding não termina quando o novo logotipo é aprovado

Existe uma parte dos projetos de rebranding que recebe quase toda a atenção. Estratégia, naming, conceito, identidade visual, aplicações e lançamento. O novo site entra no ar, as redes mudam e a empresa finalmente apresenta sua nova fase.

Só que a empresa não começou a existir no dia em que aprovou o novo logotipo.

A identidade anterior pode carregar anos de reconhecimento, imprensa, pesquisas no Google, backlinks, domínios, perfis sociais, slogans, nomes de produtos, registros e associações que continuam tendo valor econômico depois da mudança.

Por isso, um rebranding deveria responder também a uma pergunta menos glamourosa.

O que faremos com tudo aquilo que estamos deixando para trás?

Há diferença entre retirar um símbolo de circulação, manter uma marca antiga como ativo defensivo, continuar utilizando-a de forma residual, licenciá-la, transferi-la ou realmente abrir mão dela.

Essas decisões não deveriam acontecer por acidente.

Quando outra empresa quer justamente aquilo que você descartou

A consequência prática apareceu quase imediatamente. Impedida de usar sinais formados por Twitter, a Operation Bluebird direcionou sua operação para Tweet.app e passou a explorar justamente a parte da antiga identidade sobre a qual a X não conseguiu a mesma proteção preliminar.

É um exemplo bastante concreto de patrimônio marcário.

Imagine passar anos construindo um símbolo, uma expressão ou um nome tão reconhecível que o público continua usando mesmo depois de você tentar substituí-lo. Depois imagine descobrir que outra empresa está interessada exatamente naquilo que você tratou como sobra.

A marca antiga deixou de ser desejada por você.

Isso não significa que deixou de ter valor.

Antes de trocar o nome, faça um inventário

É aqui que branding, naming e propriedade intelectual precisam conversar antes do lançamento.

Um processo de rebranding deveria mapear não apenas aquilo que será criado, mas também o que já existe. Nome empresarial, marcas nominativas e figurativas, símbolos, slogans, linhas de produtos, domínios, URLs, nomes de usuário, aplicativos, materiais históricos e registros em diferentes classes ou países precisam entrar na análise.

Depois vem a pergunta mais importante: qual será o destino de cada ativo?

Alguns podem continuar em uso durante a transição. Outros talvez devam permanecer protegidos mesmo sem protagonismo na comunicação. Certos domínios precisam continuar sob controle para redirecionamento e defesa. Outros elementos realmente podem deixar de fazer sentido.

O problema não é abandonar uma marca.

O problema é descobrir alguns anos depois que a abandonamos sem perceber tudo o que estava indo embora com ela.

E no Brasil, uma marca também pode perder proteção por falta de uso?

Sim, mas é importante separar o caso americano das regras brasileiras.

A decisão envolvendo X e Operation Bluebird aplica o direito dos Estados Unidos. Ela não determina como o INPI ou a Justiça brasileira julgariam uma situação equivalente.

No Brasil, a Lei da Propriedade Industrial prevê diferentes formas de extinção do registro de marca, entre elas a renúncia e a caducidade.

Pela regra brasileira, uma pessoa com legítimo interesse pode requerer a caducidade depois de cinco anos da concessão quando o uso da marca não tiver sido iniciado no país ou quando tiver sido interrompido por mais de cinco anos consecutivos. O titular pode comprovar o uso ou justificar o desuso por razões legítimas.

Portanto, não seria correto concluir que uma empresa brasileira perde automaticamente uma marca porque deixou de colocá-la no Instagram ou trocou de logotipo.

Mas o princípio estratégico continua útil.

Registro de marca não deveria ser tratado como um documento que tiramos uma vez e esquecemos numa pasta.

Marcas são ativos que precisam ser acompanhados, utilizados, renovados e administrados.

Criar uma marca e protegê-la precisam conversar

Durante muito tempo, empresas trataram branding de um lado e registro de marca do outro. Primeiro a agência criava. Depois alguém perguntava se aquilo podia ser registrado.

Às vezes a pergunta chegava quando o projeto estava pronto, o domínio comprado, a fachada encomendada e todo mundo emocionalmente apaixonado pelo nome.

É uma ordem bastante corajosa para quem gosta de problemas evitáveis.

Naming precisa considerar pesquisa. Branding precisa conhecer o cenário marcário. Um rebranding precisa analisar os registros existentes antes de decidir quais nomes e símbolos sairão de circulação.

Isso não transforma o processo criativo em processo jurídico e não faz uma agência substituir o trabalho técnico necessário perante o INPI.

Significa apenas que criação e proteção precisam conversar.

Principalmente quando a marca já possui história e o valor do ativo está no reconhecimento acumulado durante anos.

A marca nova precisa de um plano. A antiga também.

O caso Twitter é interessante porque o público nunca recebeu um memorando determinando que deveria esquecer o passado. Pessoas continuaram dizendo Twitter, continuaram falando em tweets e continuaram reconhecendo o pássaro.

Marcas têm essa inconveniência.

Depois de algum tempo, parte delas deixa de pertencer somente ao departamento de marketing e passa a ocupar um lugar na cultura.

Isso torna um rebranding muito mais complexo do que substituir uma identidade visual.

A empresa precisa planejar o futuro sem tratar seu próprio passado como entulho criativo. Precisa entender quais ativos ainda possuem valor, quais merecem proteção e quais realmente podem ser deixados para trás.

Porque uma nova identidade pode nascer em alguns meses.

O patrimônio da antiga talvez tenha levado décadas para ser construído.

Fontes e leitura complementar

Memorandum Opinion de 3 de setembro de 2026 no processo X Corp. v. Operation Bluebird, Inc. e ordem sobre a liminar.

Reuters: X Corp consegue bloquear preliminarmente o uso do nome Twitter pela Operation Bluebird.

Manual de Marcas do INPI: concessão, manutenção, caducidade e extinção do registro.

Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui análise jurídica de casos concretos.

Débora Coelho

Débora Coelho

Diretora criativa e fundadora da Empório Isis Maria. Atua entre estratégia, branding, naming, identidade e design há mais de duas décadas.

Conheça a trajetória

Uma marca forte começa antes do desenho.

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