Branding, Identidade Visual & Propriedade Intelectual

Quando um K vira um N: o caso New Balance x Decathlon e o risco de criar um símbolo parecido com outra marca

No arquivo, o símbolo pode ser um K. No lado oposto de um tênis, pode ser percebido como outra coisa. Uma nova disputa entre New Balance e Decathlon mostra por que pesquisar um nome é apenas uma parte da proteção de uma identidade: forma, aplicação, rotação, espelhamento e contexto também podem mudar completamente a leitura de uma marca.

Empório Insights17.09.2026
Colagem editorial com dois símbolos geométricos abstratos em placas espelhadas, setas de rotação e uma sola de tênis em gravura, em preto, cinza, off-white e pink

O símbolo é um K. Até você virar o tênis.

Em 15 de setembro de 2026, a New Balance entrou com uma ação no Tribunal Federal do Distrito de Massachusetts contra duas empresas da operação americana da Decathlon.

A acusação envolve tênis da Kiprun e um símbolo que a Decathlon apresenta como uma representação estilizada da letra K. A New Balance sustenta, porém, que o problema aparece quando esse desenho é utilizado de forma espelhada no outro lado do calçado. Nessa posição, segundo a empresa, o sinal se aproxima visualmente do tradicional N presente em seus tênis.

O processo é New Balance Athletics, Inc. v. Decathlon America LLC et al., nº 1:26-cv-14235.

Por enquanto, estamos diante de uma acusação. Não existe decisão judicial reconhecendo que houve violação de marca. A petição registra que a Decathlon sustenta que seu símbolo é um K, não um N, e a empresa ainda poderá apresentar sua defesa no processo.

Está em perceber como uma forma pode mudar de significado quando sai do arquivo e entra no mundo real.

Uma identidade visual não vive parada numa prancheta

Existe um vício comum em processos de marca: analisar o símbolo sempre na mesma posição, isolado e sobre fundo branco.

Nessa condição, quase qualquer desenho parece claro.

Só que ninguém experimenta uma marca dessa maneira.

Um símbolo vai para fachada, embalagem, aplicativo, bordado, etiqueta e produto. Pode ser recortado, repetido ou fotografado de lado.

Num tênis, existe ainda um detalhe importante: há dois lados.

A New Balance afirma que uma das aplicações da Kiprun parece um K, enquanto a versão espelhada usada no lado oposto seria percebida como um N. Essa alegação é justamente o que torna o caso tão didático para design.

Um símbolo não é apenas aquilo que o designer pretendia desenhar.

Também é aquilo que as pessoas conseguem enxergar quando ele é aplicado.

“Mas o meu desenho é diferente” pode ser uma defesa visual frágil

Há uma ideia simplista sobre conflitos de identidade visual: se os dois arquivos vetoriais não são idênticos, então não existe problema.

Marcas não são comparadas apenas como exercícios de encontrar diferenças.

Proporção, estrutura, inclinação, massa gráfica, categoria e impressão geral influenciam como um sinal é percebido.

No Brasil, o Manual de Marcas do INPI explica que a análise de possível colidência considera aspectos gráficos, fonéticos e ideológicos e parte da impressão geral dos conjuntos para verificar se existe risco de confusão ou associação indevida.

Para marcas figurativas, isso é especialmente importante porque o elemento distintivo pode estar justamente numa forma estilizada.

Por isso, o raciocínio não deveria terminar em “o nosso é um K e o deles é um N”.

Essa informação importa. Mas não é a única.

Se duas formas produzem uma impressão suficientemente próxima no contexto em que aparecem, especialmente dentro da mesma categoria de produto, a análise se torna muito mais complexa.

O público também enxerga a marca fora do PDF de apresentação

Nada disso impede o público de olhar para a aplicação final e enxergar outra empresa.

Se a leitura espontânea das pessoas aponta repetidamente para uma marca já conhecida, existe um problema de percepção que a apresentação de branding talvez não consiga resolver.

Isso não significa que comentários em redes sociais determinem, sozinhos, uma infração marcária.

Significa apenas que percepção não é um detalhe posterior ao projeto.

Ela é parte daquilo que a marca existe para produzir.

O N da New Balance não é só uma letra

A New Balance afirma utilizar seu N em calçados há décadas e diz ter investido centenas de milhões de dólares na promoção de marcas construídas em torno desse sinal.

Isso ajuda a entender por que uma letra aparentemente simples pode se tornar um ativo sensível.

O alfabeto não pertence à New Balance. Um N continua sendo um N.

O valor está na forma como aquela letra foi construída, repetida e ensinada ao consumidor ao longo do tempo.

É assim que um símbolo ganha força.

No começo, ele é desenho.

Depois de anos de repetição e reconhecimento, passa a funcionar como assinatura. O sinal já consegue identificar a empresa sozinho.

Quando uma identidade chega nesse estágio, formas visualmente próximas naturalmente recebem mais atenção.

Pesquisa de naming não basta quando a marca também possui um símbolo forte

Esse caso conversa diretamente com uma falha comum nos projetos de branding.

A empresa pesquisa o nome e depois desenvolve o símbolo como se a disponibilidade visual fosse uma questão completamente separada.

Não deveria ser.

A pesquisa precisa considerar também o universo figurativo, principalmente quando o símbolo será um dos principais elementos de identificação.

O INPI utiliza classificação própria para elementos figurativos, baseada na Classificação de Viena, justamente para organizar buscas relacionadas a desenhos e símbolos.

Isso não significa que uma pesquisa simples garanta ausência de conflito.

Significa que criação e propriedade intelectual precisam conversar antes de o símbolo estar emocionalmente aprovado, aplicado na fachada e produzido em escala.

Existem geometrias semelhantes? O desenho assume outra leitura quando rotacionado ou espelhado? Há concorrentes reconhecidos trabalhando com formas próximas?

Essas perguntas pertencem ao processo criativo.

Um bom símbolo precisa ser submetido a um pouco de crueldade

Depois que um símbolo parece resolvido, é justamente quando precisamos tentar quebrá-lo.

Reduzir. Inverter. Girar. Espelhar. Recortar. Repetir. Bordar. Aplicar em superfície curva. Observar de longe. Ver apenas metade.

E perguntar o que ele começa a parecer em cada uma dessas situações.

Uma marca real não será vista apenas na condição perfeita escolhida pelo designer.

No caso de uma aplicação bilateral, como um calçado, o espelhamento não é uma hipótese exótica.

É parte natural do produto.

Se uma versão precisa ser espelhada para funcionar do outro lado, essa versão também deveria fazer parte do estudo visual desde o início.

E no Brasil?

O processo New Balance x Decathlon ocorre nos Estados Unidos e será decidido segundo as regras aplicáveis naquele país. Não seria correto afirmar que o INPI ou um tribunal brasileiro chegariam automaticamente à mesma conclusão diante das mesmas formas.

O Manual de Marcas do INPI considera a impressão geral dos sinais, suas semelhanças gráficas e a possibilidade de confusão ou associação indevida. A análise também dialoga com a afinidade entre produtos e serviços.

A pesquisa não deveria começar quando o logotipo já está aprovado, todo mundo se apaixonou pelo símbolo e a produção está contratada.

É melhor descobrir um problema antes de produzir fachada, embalagem, uniforme, site e cinquenta aplicações.

Normalmente sai mais barato.

Identidade visual não termina no arquivo final

Ainda não sabemos se o tribunal considerará o símbolo da Kiprun conflitante com as marcas da New Balance.

Mas o caso já oferece uma boa aula sobre desenvolvimento de identidade.

O símbolo não existe apenas como conceito.

Existe como percepção.

Analisar uma marca exige observar forma, categoria, concorrentes, aplicações e aquilo que acontece quando o desenho deixa a tela e passa a existir no produto.

No Illustrator, pode continuar sendo perfeitamente um K.

No lado oposto do tênis, alguém pode enxergar um N.

E quando o público começa a reconhecer outra marca antes de reconhecer a sua, explicar o conceito deixa de ser a parte mais urgente do problema.

Fontes e leitura complementar

Reuters: New Balance processa Decathlon por alegada violação de sua marca N em calçados Kiprun.

Registro público do processo New Balance Athletics, Inc. v. Decathlon America LLC et al., nº 1:26-cv-14235.

INPI: Manual de Marcas, análise de colidência, impressão geral e risco de confusão ou associação indevida.

Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui análise jurídica de casos concretos.

Débora Coelho

Débora Coelho

Diretora criativa e fundadora da Empório Isis Maria. Atua entre estratégia, branding, naming, identidade e comunicação para marcas profissionais há mais de duas décadas.

Conheça a trajetória

Uma marca forte começa antes do desenho.

Conte o momento do seu negócio. A partir dele, estruturamos a conversa sobre estratégia, naming, branding ou a combinação mais adequada.