O símbolo é um K. Até você virar o tênis.
Em 15 de setembro de 2026, a New Balance entrou com uma ação no Tribunal Federal do Distrito de Massachusetts contra duas empresas da operação americana da Decathlon.
A acusação envolve tênis da Kiprun e um símbolo que a Decathlon apresenta como uma representação estilizada da letra K. A New Balance sustenta, porém, que o problema aparece quando esse desenho é utilizado de forma espelhada no outro lado do calçado. Nessa posição, segundo a empresa, o sinal se aproxima visualmente do tradicional N presente em seus tênis.
O processo é New Balance Athletics, Inc. v. Decathlon America LLC et al., nº 1:26-cv-14235.
Por enquanto, estamos diante de uma acusação. Não existe decisão judicial reconhecendo que houve violação de marca. A petição registra que a Decathlon sustenta que seu símbolo é um K, não um N, e a empresa ainda poderá apresentar sua defesa no processo.
Está em perceber como uma forma pode mudar de significado quando sai do arquivo e entra no mundo real.
Uma identidade visual não vive parada numa prancheta
Existe um vício comum em processos de marca: analisar o símbolo sempre na mesma posição, isolado e sobre fundo branco.
Nessa condição, quase qualquer desenho parece claro.
Só que ninguém experimenta uma marca dessa maneira.
Um símbolo vai para fachada, embalagem, aplicativo, bordado, etiqueta e produto. Pode ser recortado, repetido ou fotografado de lado.
Num tênis, existe ainda um detalhe importante: há dois lados.
A New Balance afirma que uma das aplicações da Kiprun parece um K, enquanto a versão espelhada usada no lado oposto seria percebida como um N. Essa alegação é justamente o que torna o caso tão didático para design.
Um símbolo não é apenas aquilo que o designer pretendia desenhar.
Também é aquilo que as pessoas conseguem enxergar quando ele é aplicado.
“Mas o meu desenho é diferente” pode ser uma defesa visual frágil
Há uma ideia simplista sobre conflitos de identidade visual: se os dois arquivos vetoriais não são idênticos, então não existe problema.
Marcas não são comparadas apenas como exercícios de encontrar diferenças.
Proporção, estrutura, inclinação, massa gráfica, categoria e impressão geral influenciam como um sinal é percebido.
No Brasil, o Manual de Marcas do INPI explica que a análise de possível colidência considera aspectos gráficos, fonéticos e ideológicos e parte da impressão geral dos conjuntos para verificar se existe risco de confusão ou associação indevida.
Para marcas figurativas, isso é especialmente importante porque o elemento distintivo pode estar justamente numa forma estilizada.
Por isso, o raciocínio não deveria terminar em “o nosso é um K e o deles é um N”.
Essa informação importa. Mas não é a única.
Se duas formas produzem uma impressão suficientemente próxima no contexto em que aparecem, especialmente dentro da mesma categoria de produto, a análise se torna muito mais complexa.
O público também enxerga a marca fora do PDF de apresentação
Nada disso impede o público de olhar para a aplicação final e enxergar outra empresa.
Se a leitura espontânea das pessoas aponta repetidamente para uma marca já conhecida, existe um problema de percepção que a apresentação de branding talvez não consiga resolver.
Isso não significa que comentários em redes sociais determinem, sozinhos, uma infração marcária.
Significa apenas que percepção não é um detalhe posterior ao projeto.
Ela é parte daquilo que a marca existe para produzir.
O N da New Balance não é só uma letra
A New Balance afirma utilizar seu N em calçados há décadas e diz ter investido centenas de milhões de dólares na promoção de marcas construídas em torno desse sinal.
Isso ajuda a entender por que uma letra aparentemente simples pode se tornar um ativo sensível.
O alfabeto não pertence à New Balance. Um N continua sendo um N.
O valor está na forma como aquela letra foi construída, repetida e ensinada ao consumidor ao longo do tempo.
É assim que um símbolo ganha força.
No começo, ele é desenho.
Depois de anos de repetição e reconhecimento, passa a funcionar como assinatura. O sinal já consegue identificar a empresa sozinho.
Quando uma identidade chega nesse estágio, formas visualmente próximas naturalmente recebem mais atenção.
Pesquisa de naming não basta quando a marca também possui um símbolo forte
Esse caso conversa diretamente com uma falha comum nos projetos de branding.
A empresa pesquisa o nome e depois desenvolve o símbolo como se a disponibilidade visual fosse uma questão completamente separada.
Não deveria ser.
A pesquisa precisa considerar também o universo figurativo, principalmente quando o símbolo será um dos principais elementos de identificação.
O INPI utiliza classificação própria para elementos figurativos, baseada na Classificação de Viena, justamente para organizar buscas relacionadas a desenhos e símbolos.
Isso não significa que uma pesquisa simples garanta ausência de conflito.
Significa que criação e propriedade intelectual precisam conversar antes de o símbolo estar emocionalmente aprovado, aplicado na fachada e produzido em escala.
Existem geometrias semelhantes? O desenho assume outra leitura quando rotacionado ou espelhado? Há concorrentes reconhecidos trabalhando com formas próximas?
Essas perguntas pertencem ao processo criativo.
Um bom símbolo precisa ser submetido a um pouco de crueldade
Depois que um símbolo parece resolvido, é justamente quando precisamos tentar quebrá-lo.
Reduzir. Inverter. Girar. Espelhar. Recortar. Repetir. Bordar. Aplicar em superfície curva. Observar de longe. Ver apenas metade.
E perguntar o que ele começa a parecer em cada uma dessas situações.
Uma marca real não será vista apenas na condição perfeita escolhida pelo designer.
No caso de uma aplicação bilateral, como um calçado, o espelhamento não é uma hipótese exótica.
É parte natural do produto.
Se uma versão precisa ser espelhada para funcionar do outro lado, essa versão também deveria fazer parte do estudo visual desde o início.
E no Brasil?
O processo New Balance x Decathlon ocorre nos Estados Unidos e será decidido segundo as regras aplicáveis naquele país. Não seria correto afirmar que o INPI ou um tribunal brasileiro chegariam automaticamente à mesma conclusão diante das mesmas formas.
O Manual de Marcas do INPI considera a impressão geral dos sinais, suas semelhanças gráficas e a possibilidade de confusão ou associação indevida. A análise também dialoga com a afinidade entre produtos e serviços.
A pesquisa não deveria começar quando o logotipo já está aprovado, todo mundo se apaixonou pelo símbolo e a produção está contratada.
É melhor descobrir um problema antes de produzir fachada, embalagem, uniforme, site e cinquenta aplicações.
Normalmente sai mais barato.
Identidade visual não termina no arquivo final
Ainda não sabemos se o tribunal considerará o símbolo da Kiprun conflitante com as marcas da New Balance.
Mas o caso já oferece uma boa aula sobre desenvolvimento de identidade.
O símbolo não existe apenas como conceito.
Existe como percepção.
Analisar uma marca exige observar forma, categoria, concorrentes, aplicações e aquilo que acontece quando o desenho deixa a tela e passa a existir no produto.
No Illustrator, pode continuar sendo perfeitamente um K.
No lado oposto do tênis, alguém pode enxergar um N.
E quando o público começa a reconhecer outra marca antes de reconhecer a sua, explicar o conceito deixa de ser a parte mais urgente do problema.
Fontes e leitura complementar
Reuters: New Balance processa Decathlon por alegada violação de sua marca N em calçados Kiprun.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui análise jurídica de casos concretos.

