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Quando um documento tenta comandar a inteligência artificial: o alerta do STJ para marcas, escritórios e empresas

A identificação de um comando oculto em uma petição revela que o risco da IA não está apenas no que ela produz. Também está nos documentos que empresas e profissionais fornecem a sistemas automatizados, muitas vezes sem qualquer protocolo de segurança.

Empório Insights09.09.2026
Uma composição editorial em gravura contemporânea mostrando uma petição ou documento aberto sobre uma mesa, com linhas técnicas, carimbos e pequenas instruções ocultas saindo das margens e tentando alcançar uma máquina de escrever antiga. Ao lado, uma mão humana segura uma lupa sobre o documento, representando revisão e supervisão. A máquina deve aparecer parcialmente bloqueada por uma faixa de papel rosa, sugerindo que a tecnologia está sob controle humano. Fundo off-white texturizado, preto e

Introdução

Em 2 de setembro de 2026, o Superior Tribunal de Justiça informou ter identificado um comando oculto inserido em uma petição com o objetivo de influenciar o comportamento de um sistema de inteligência artificial utilizado no tribunal. O episódio foi tratado pela Sexta Turma como gravíssimo, com determinação de comunicação à Ordem dos Advogados do Brasil e ao Ministério Público Federal. Segundo o tribunal, a prática conhecida como prompt injection pode representar ato atentatório à dignidade da Justiça e, em determinadas circunstâncias, configurar fraude processual. (stj.jus.br)

A notícia parece, à primeira vista, restrita ao universo jurídico. Não é. Ela expõe uma fragilidade que também alcança empresas, clínicas, agências, departamentos de marketing e profissionais liberais: documentos, imagens, briefings e páginas da internet já podem ser lidos, resumidos, classificados ou utilizados como contexto por sistemas de IA. Se esse material carregar instruções escondidas, informações falsas ou dados sensíveis, a tecnologia poderá ser conduzida a conclusões inadequadas. A máquina talvez não tenha intenção, mas o risco reputacional continua bastante humano.

O que é prompt injection e por que isso importa para a comunicação

Prompt injection ocorre quando uma instrução é inserida em um conteúdo que deveria ser apenas analisado por uma ferramenta de IA. Em termos simples, o documento deixa de ser somente documento e tenta assumir o papel de comando. Pode haver uma orientação escondida em texto branco, metadados, comentários, camadas de um arquivo, código de uma página ou trecho aparentemente irrelevante para o leitor.

No caso comunicado pelo STJ, o comando estava em uma peça processual e buscava beneficiar a parte recorrente. O tribunal esclareceu que ministros e equipes continuam analisando os processos e que a IA não produz automaticamente decisões que seriam apenas assinadas pelos magistrados. Ainda assim, o episódio demonstra que qualquer sistema que processe grandes volumes de informação precisa considerar a possibilidade de manipulação do conteúdo de entrada. (stj.jus.br)

Para uma marca, essa discussão é especialmente relevante porque a comunicação contemporânea se apoia em um volume crescente de materiais reaproveitados por ferramentas automatizadas. Um site pode ser rastreado por mecanismos de busca e assistentes de IA. Um contrato pode ser resumido por uma plataforma. Um briefing pode alimentar um gerador de texto. Um prontuário, quando tratado de maneira inadequada, pode acabar exposto a uma ferramenta que não deveria receber dados de saúde. O problema deixa de ser apenas “a IA errou” e passa a ser “qual processo permitiu que uma informação manipulada ou sigilosa entrasse no sistema?”.

O alerta não nasceu no STJ

A decisão do STJ se soma a uma movimentação institucional mais ampla. Em junho de 2026, o Conselho Nacional de Justiça aprovou orientação técnica voltada à mitigação dos riscos de comandos ocultos inseridos em arquivos processuais. O documento menciona medidas de segurança, governança, auditoria, supervisão humana e resposta a incidentes, além da criação de um Programa de Segurança Adversarial para sistemas de inteligência artificial. (cnj.jus.br)

A Ordem dos Advogados do Brasil também divulgou uma proposta para desenvolver uma ferramenta capaz de identificar vulnerabilidades desse tipo em petições, documentos e peças processuais. A iniciativa mostra que a preocupação não está limitada ao tribunal. Ela alcança o profissional que redige, revisa, assina e envia o material. (oab.org.br)

Esse movimento traz uma lição importante para o setor privado: governança de IA não começa na escolha da ferramenta. Começa na definição do que pode ser inserido nela, quem pode utilizar o sistema, como os resultados serão revisados e quais registros serão mantidos. Uma empresa que libera o uso de qualquer plataforma gratuita para tratar documentos internos pode estar terceirizando sua confidencialidade sem sequer perceber.

O que empresas e profissionais precisam revisar

O primeiro passo é mapear os pontos de contato entre documentos e sistemas de inteligência artificial. Isso inclui ferramentas usadas para redação, atendimento, análise de contratos, SEO, produção de anúncios, transcrição, criação de imagens, gestão de redes sociais e automação comercial. O inventário deve indicar quais dados entram em cada sistema, quem tem acesso, onde o conteúdo é armazenado e se o fornecedor utiliza essas informações para treinamento ou melhoria do serviço.

Em escritórios de advocacia, a revisão precisa incluir petições, jurisprudência, documentos de clientes e fluxos de pesquisa. O profissional deve avaliar se o conteúdo recebido de terceiros contém elementos capazes de interferir na ferramenta utilizada para leitura ou síntese. Também é recomendável manter revisão humana sobre citações, nomes, datas, números de processos e conclusões. Uma peça juridicamente elegante, mas contaminada por conteúdo manipulador, continua sendo um problema de responsabilidade profissional e reputação.

Em clínicas e instituições de saúde, o cuidado deve ser ainda maior. Dados de saúde são sensíveis e exigem tratamento compatível com a legislação de proteção de dados e com os deveres de confidencialidade. A Resolução CFM nº 2.454/2026, que entrou em vigor em 26 de agosto de 2026, estabelece parâmetros para o uso da inteligência artificial na medicina e reforça que a tecnologia deve apoiar a prática médica, preservando a autonomia do profissional, os direitos dos pacientes e a proteção dos dados. (portal.cfm.org.br)

Isso também afeta a comunicação. Uma clínica que utiliza IA para criar conteúdos educativos precisa separar informação institucional, educação em saúde e publicidade. A publicidade médica continua sujeita às regras de identificação profissional, responsabilidade do médico ou diretor técnico e limites contra conteúdo enganoso, sensacionalista ou que induza à percepção de garantia de resultado. (publicidademedica.cfm.org.br) A inteligência artificial pode acelerar a redação, mas não pode ser usada como desculpa para publicar uma promessa clínica que nenhum profissional responsável sustentaria em uma conversa presencial.

Branding também é governança

Branding costuma ser associado a nome, identidade visual, tom de voz e posicionamento. Essa visão é incompleta para empresas que já dependem de tecnologia em sua comunicação. A marca também é construída pela forma como a organização protege informações, revisa conteúdos e reage quando um processo falha.

Uma empresa que publica textos produzidos automaticamente, sem checar fontes, pode comprometer autoridade e SEO. Uma agência que envia dados de clientes para ferramentas sem critérios pode comprometer confiança. Um escritório que apresenta conteúdo gerado por IA sem conferência pode colocar sua credibilidade em risco. Uma clínica que usa imagens sintéticas ou depoimentos automatizados sem transparência pode produzir uma comunicação visualmente impecável e eticamente desastrosa. A tipografia continuará bonita, mas a reputação talvez não acompanhe.

A orientação do CNJ é útil justamente porque trata segurança, auditoria e supervisão humana como partes do uso responsável da IA. A ANPD, por sua vez, tem conduzido um sandbox regulatório para acompanhar projetos de inteligência artificial em ambiente controlado, observando desafios de governança, segurança, transparência e proteção de dados. (gov.br) Esses movimentos indicam uma mudança de expectativa: organizações não serão avaliadas apenas pela capacidade de inovar, mas também pela capacidade de demonstrar como inovam.

Um protocolo prático para reduzir riscos

Empresas e profissionais podem começar com um protocolo simples, proporcional ao seu porte e ao grau de sensibilidade dos dados. Primeiro, classifique os conteúdos em públicos, internos, confidenciais e sensíveis. Depois, defina quais ferramentas podem receber cada categoria. Em seguida, estabeleça revisão obrigatória para materiais jurídicos, médicos, financeiros, regulatórios ou capazes de gerar impacto reputacional relevante.

Também é importante preservar versões dos documentos, registrar quem fez a revisão e documentar alterações relevantes. Em páginas, imagens e arquivos recebidos de terceiros, vale verificar camadas, comentários, metadados e trechos ocultos quando o material for alimentar sistemas automatizados. Para fornecedores, contratos devem esclarecer responsabilidades, proteção de dados, retenção de informações, comunicação de incidentes e possibilidade de auditoria.

O protocolo precisa alcançar a comunicação externa. Antes de publicar um artigo, anúncio ou material educativo, a equipe deve confirmar a origem dos dados, a atualidade das informações, a existência de promessas implícitas e a adequação ao setor regulado. Em marketing médico e jurídico, essa etapa não é burocracia. É parte da própria estratégia de marca.

Conclusão

O caso do STJ mostra que a inteligência artificial pode ser influenciada por conteúdos que parecem meramente informativos. Essa constatação muda a pergunta que empresas e profissionais precisam fazer. Em vez de perguntar apenas qual ferramenta gera o melhor texto, imagem ou resumo, é necessário perguntar quais dados entram no sistema, que tipo de manipulação pode ocorrer e quem responderá pela decisão final.

Para marcas, o aprendizado é direto: confiança depende de processos que o público nem sempre vê. Governança, revisão humana, proteção de dados e rastreabilidade não aparecem necessariamente na identidade visual, mas aparecem quando algo dá errado. A organização que trata esses elementos como parte do branding tende a construir uma reputação mais consistente e menos vulnerável a atalhos tecnológicos.

A Empório Isis Maria entende a comunicação como um trabalho que combina estratégia, sensibilidade e responsabilidade. A inteligência artificial pode ampliar repertório e eficiência, desde que permaneça subordinada a critérios humanos, conhecimento do contexto e cuidado com as consequências. Afinal, se até um documento já aprendeu a tentar dar ordens à máquina, talvez seja prudente ensinar as marcas a estabelecerem algumas regras antes de apertar o botão “gerar”.

CTA: Se sua empresa, clínica ou escritório utiliza inteligência artificial na comunicação, vale revisar os fluxos antes que a tecnologia defina, sozinha, o que será publicado, analisado ou compartilhado. A Empório Isis Maria pode ajudar a transformar esse cuidado em uma estratégia de marca clara, humana e coerente com o seu negócio.

Débora Coelho

Débora Coelho

Diretora criativa e fundadora da Empório Isis Maria. Atua entre estratégia, branding, naming, identidade e design há mais de duas décadas.

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